Autor deste post: Acadêmico José Geraldo de Souza
SUGESTÃO DE LEITURA:
INFOCRACIA: digitalização e crise da democracia
Autor: BYUNG-CHUL HAN
Tradução: Gabriel S. Philipson
Editora: Editora Vozes, Petrópolis (RJ), 2022 (110 páginas)
(Por José Geraldo de Souza, novembro de 2024)
Sobre o autor
Byung-Chul Han é sul-coreano de nascimento (1959), mas radicou-se na Alemanha, onde estudou Filosofia, na Universidade de Friburgo, e Literatura Alemã e Teologia, na Universidade de Munique. É professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim. Publicou, no Brasil, pela Editora Vozes, vários livros sobre a sociedade atual.
Sobre o livro
O tema central do livro é a crise da democracia, na sociedade atual, crise essa provocada e mediada pelo tsunami de informações e seu processamento através de algoritmos e da inteligência artificial. O livro, com cerca de 110 páginas, aborda cinco temas (ou capítulos) que são: Regime de Informação, Infocracia, O Fim da Ação Comunicativa, Racionalidade Digital e Crise da Verdade. A abordagem fundamentada desses temas pelo autor lança luzes sobre fatos e eventos que ocorrem, atualmente, em todo o mundo, inclusive na sociedade brasileira.
A seguir são transcritos alguns trechos e fragmentos de cada capítulo do livro, com o objetivo de apenas provocar o interesse e a curiosidade de outros possíveis leitores desse livro.
Regime de Informação
Regime de Informação é “a forma de dominação através de informações e inteligência artificial que definem processos sociais, econômicos e políticos. […] O regime de informação está acoplado ao capitalismo da informação, que se desenvolve em capitalismo da vigilância e que degrada os seres humanos em gado, em animais de consumo e dados”. (p. 7)
“O regime disciplinar é a forma de dominação do capitalismo industrial. Assume, ele mesmo, uma forma maquinal. Todos e cada um são uma roldana no interior da maquinaria disciplinar do poder”. (p. 7-8)
A vigilância infiltra-se no cotidiano na forma de conveniência (oferecida na forma de smart apps – apps inteligentes):
– Smartphone: informante eficiente, vigilância duradoura;
– Smart Home: prisão digital, protocolo da vida cotidiana;
– Smart Robô (por exemplo, um aspirador de pó): mapeador da casa;
– Smart Bed: vigilância durante o sono”. (p. 16-17)
Infocracia
“A digitalização do mundo avança implacável. […] O tsunami de informação desencadeia forças destrutivas. […] A democracia degenera em infocracia. (p. 25)
“As mídias eletrônicas de massa destroem o discurso racional marcado pela cultura livresca. Produzem uma midiocracia”. (p. 27)
“A midiocracia é, ao mesmo tempo, uma teatrocracia. A política se esgota em encenações midiáticas de massa”. (p. 29)
“A psicometria (ou psicografia – ‘procedimento impulsionado por dados para a produção de um perfil de personalidade’ (p.38)) é uma ferramenta ideal para o marketing político psicopolítico. […] O comportamento eleitoral é influenciado, assim como o comportamento do consumo, em níveis inconscientes. A infocracia impulsionada por dados mina o processo democrático que pressupõe autonomia e liberdade de vontade”. (p. 39)
“A democracia é lenta, prolixa e tediosa. A propagação viral de informações, a infodemia, prejudica, assim, de modo massivo, o processo democrático”. (p. 45)
“Informações ultrapassam num piscar de olhos a verdade e esta não lhes pode alcançar. Está condenada ao fracasso, portanto, a tentativa de, com a verdade, querer lutar contra a infodemia. Ela é resistente à verdade” (p. 46)
O Fim da Ação Comunicativa
“O discurso é um movimento de ir e vir. (Em latim, discursus significa andar ao redor.) No discurso, somos desviados de nossas próprias convicções em sentido positivo pelo outro. Apenas a voz do outro outorga ao meu comentário, à minha opinião, uma qualidade discursiva. Na ação comunicativa, tenho que imaginar a possibilidade de que meu comentário seja posto em questão pelo outro. Um comentário sem interrogação não tem caráter discursivo”. (p. 51-52)
“Sem a presença do outro, minha opinião não é discurso, muito menos representativa, mas autista, doutrinária e dogmática”. (p. 51)
“No universo pós-factual das tribos digitais, a opinião não tem mais relação alguma com os fatos. Desse modo, prescinde de qualquer racionalidade. Não é nem criticável, nem necessita de fundamentação. Quem se compromete com ela, contudo, recebe uma sensação de pertencimento. O discurso é substituído, portanto, pela crença e pelo voto de fé. Fora da área de cada tribo, então, há apenas inimigos – os outros, afinal – que devem ser combatidos”. (p. 61)
“A tribalização progressiva da sociedade ameaça a democracia. Leva a uma ditadura da identidade e da opinião tribalista que carece de toda racionalidade comunicativa”. (p. 61)
Racionalidade Digital
“Racionalidade comunicativa: forma de racionalidade que leva ao discurso. Racionalidade digital: forma de racionalidade que se sustenta sem discurso”. (p. 65)
“A racionalidade digital substitui o aprendizado discursivo pelo Machine Learning, pelo aprendizado das máquinas. Algoritmos pantominam, portanto, argumentos”. (p. 66)
“Da perspectiva dataísta, o discurso não é outra coisa do que uma forma lenta e ineficiente de processamento da informação”. (pa. 66)
“Os dataístas acreditam que o Big Data e a inteligência artificial nos capacitam a um olhar divino, católico que abrange todos os processos sociais de modo preciso e os otimiza para o bem-estar de todos”. (p.67)
Na página 79 do livro, há uma interessante citação do livro “As palavras e as coisas” de M. Foucault:
“O ser humano é uma invenção cuja recente data a arqueologia do nosso pensamento mostra facilmente. E talvez seu fim esteja próximo. […] Então pode-se apostar que o ser humano desapareceria, como um rosto de areia na beira do mar”.
“Esse mar cujas ondas fazem o rosto desaparecer na areia é, então, um mar infinito de dados. O ser humano se dissolve nele com um registro de dados”. (p. 79)
Crise da Verdade
“Um novo niilismo se prolifera hoje. […] O novo niilismo é um fenômeno do século XXI. Pertence às rejeições patológicas da sociedade da informação. Surge ali, onde perdemos a crença na verdade. Na era das fake News, desinformações e teorias da conspiração, a realidade, com suas verdades factuais, se nos extraviou”. (p. 81)
“Na crise da verdade, perde-se o mundo comum, a linguagem comum. A verdade é um regulador social, uma ideia regulativa da sociedade”. (p.83)
“À verdade é inerente uma força centrípeta que mantém uma sociedade justa e coesa. A força centrífuga inerente às informações destrói a coesão social. O novo niilismo tem lugar no interior desse processo destrutivo, no qual o discurso também se desintegra em informações, levando à crise da democracia”. (p.84)
“O novo niilismo não implica que a mentira foi feita verdade ou que a verdade foi difamada como mentira. Em vez disso, a própria diferenciação entre verdade e mentira é que foi anulada. […] Mentir é possível apenas ali, onde a diferenciação entre verdade e mentira se mantém intacta. […] O mentiroso não é um niilista. […] Fake news não são uma mentira. Elas atacam a própria facticidade. Desfactizam a realidade. […] Quem é cego aos fatos e à realidade, constitui um perigo maior à verdade do que o mentiroso”. (p.84-85)
“A democracia não tolera o novo niilismo. Ela exige falar a verdade. Apenas a infocracia se sustenta sem verdade”. (p.100)
A partir da página 100, o autor discorre sobre os últimos ensinamentos de M. Foucault em “O governo de si e dos outros” (1982/1983):
“A verdadeira democracia é guiada por dois princípios: o da isegoria e o da parrhesia. O da isegoria diz respeito ao direito concedido a todo cidadão de se expressar livremente. A parrhesia, a coragem da verdade, o dizer a verdade, pressupõe e exige a isegoria, mas excede o direito constitucional de tomar a palavra. […] A parrhesia compromete as pessoas que agem politicamente, portanto, a dizem a verdade, a cuidarem da comunidade ao se valerem da fala verdadeira e racional. […] O dizer a verdade é uma ação genuinamente política. […] A liberdade de expressão, por sua parte, concerne apenas à isegoria. Só a liberdade à verdade cria a democracia real”.
“A parrhesia se degenera hoje em uma liberdade concedida a qualquer um de dizer coisas abstratas, de dizer mesmo tudo o que quiser ou que lhe traga vantagens”. (p.102)
“Na sociedade pós-factual da informação, por sua vez, o phatos da verdade não leva a absolutamente nada. Perde-se em ruído da informação. A verdade decai em poeira de informação levada pelo vento digital”. (p.107)